A segunda temporada de Wandinha entregou exatamente o que a gente esperava da Netflix e de Jenna Ortega, só que com o pé no acelerador. O mistério da vez circulou por Willow Hill, mexendo num vespeiro de segredos da própria árvore genealógica dos Addams e escalando a ameaça dos Hydes. E se você achou que a protagonista ia sair ilesa do embate com o Tyler, achou errado. A garota termina com os poderes psíquicos em frangalhos logo após aquela visão sinistra da Enid, o que acaba culminando num coma profundo.
É nesse limbo que a série dá uma cartada de mestre: o retorno de Weems. A diretora volta como uma espécie de guia espiritual, revelando-se a 13ª ancestral da linhagem da protagonista. Expandir a mitologia e ainda trazer de volta uma personagem que a gente já tinha chorado a morte na temporada passada foi um fan service que funcionou perfeitamente.
Mas o que realmente bagunçou o tabuleiro da série foi a Enid. A garota simplesmente assume a forma de lobisomem Alfa do nada, sem nem precisar de lua cheia, e perde totalmente o controle da situação. Numa tentativa desesperada de não machucar o pessoal de Nevermore, ela foge. O gancho para a terceira temporada já está escancarado aqui, com a Wandinha decidindo ir atrás da amiga.
Enquanto isso, o Tyler sobrevive à carnificina, mas perde a mãe, Françoise — que, surpresa, também era uma Hyde. A professora Capri não perde tempo e já joga a isca, oferecendo a ele um lugar numa alcatéia de Hydes “livres”. Fica no ar aquela ambiguidade clássica para os próximos episódios: a mulher quer mesmo ajudar ou é a nova vilã do pedaço?
Agora, se teve um arco que foi o puro suco do delírio, foi o do zumbi Slurp. A revelação de que a criatura é, na verdade, Isaac Night — um cientista que por acaso é tio do Tyler — deixou muita gente de queixo caído. A história pregressa do cara é bizarra: ele tentou “curar” os Hydes para salvar a irmã, Françoise, e no processo do experimento quase tirou a vida do Gomez. Quem resolveu a treta na época foi a Mortícia, que cortou a mão do Isaac para salvar o marido. Essa mão decepada foi reanimada e virou o nosso amado Mãozinha (em inglês, Thing, que é um anagrama bem esperto para o sobrenome Night). No tempo presente, o Isaac volta na pele do Slurp, finge ajudar a família, mas planeja roubar os poderes do sobrinho e colar o Mãozinha de volta no próprio braço. A vingança, porém, vem em cinco dedos: a mão se rebela, arranca o coração mecânico do cientista e volta correndo pro colo dos Addams.
Toda a dinâmica familiar, aliás, ganhou um respiro enorme dessa vez. Tivemos a Mortícia quebrando tudo e sendo crucial no confronto final, o Gomez lado a lado com o Feioso na sua própria jornada de buscas, e o Tio Chico dando as caras no último segundo para aquele cliffhanger perfeito, engatando uma road trip com a Wandinha para caçar a Enid.
Essa pegada sombria, caótica e cheia de reviravoltas de Wandinha capturou muito bem a energia da televisão recentemente. 2026 tem sido um terreno fértil para produções que pegam convenções de gênero e amassam até não sobrar nada reconhecível. Dá uma olhada no que os críticos do The Hollywood Reporter elegeram como o suprassumo da TV na primeira metade do ano, onde o bizarro e o genial andam de mãos dadas o tempo todo.
O Top 10 da Crítica em 2026 (Até Agora)
-
Color Theories by Julio Torres: Só uma mente excêntrica como a do criador de Los Espookys conseguiria emplacar um especial na HBO que mistura estética de Dr. Seuss com um humor absurdamente seco. O que começa parecendo um exercício lúdico sobre sinestesia, aos poucos, bate de frente com as engrenagens absurdas que controlam o nosso mundo.
-
DTF. St. Louis: A HBO fisgou todo mundo com a premissa de um triângulo amoroso assassino encabeçado por Jason Bateman, David Harbour e Linda Cardellini. Mas o showrunner Steven Conrad fez a manobra perfeita: trocou o pneu com o carro andando e transformou o mistério numa dramédia melancólica sobre solidão, amizade masculina e as consequências de ter posado para a Playgirl na juventude.
-
The Fall and Rise of Reggie Dinkins: A NBC apostou na clássica fórmula Tina Fey e Robert Carlock de 30 Rock, e acertou em cheio. Colocar Daniel Radcliffe, Tracy Morgan e Erika Alexander numa trama sobre um ex-astro da NFL em desgraça e um documentarista em busca de redenção deu alma ao projeto. Fácil, a melhor comédia da TV aberta desde Abbott Elementary.
-
How to Get to Heaven from Belfast: O novo projeto da criadora de Derry Girls na Netflix é uma montanha-russa. Três amigas viajam de Belfast para o interior da Irlanda por causa de um velório e acabam desenterrando segredos numa trama criminal. Ácida, misteriosa e absurdamente engraçada.
-
Industry (4ª Temporada): Mais tóxica e ambiciosa do que nunca. A série da HBO mergulha de vez a anti-heroína implacável da Myha’la, o mentor problemático de Ken Leung e a herdeira cínica da Marisa Abela nas águas turvas do dinheiro sujo, exploração sexual e política questionável. Muita série tenta retratar o vazio moral dos super-ricos, mas poucas têm tanto sangue nos olhos quanto essa.
-
Lord of the Flies: Esqueça qualquer tom satírico reconfortante na vibe de The White Lotus. A adaptação do romance de William Golding pela Netflix é uma descida visceral e assombrosa à loucura. Um elenco de novatos entrega atuações angustiantes num cenário de isolamento visualmente impecável.
-
Margo’s Got Money Troubles: David E. Kelley foi para a Apple contar a história de uma mãe solo endividada que, do nada, cria um perfil no OnlyFans focado em… alienígenas. Com Elle Fanning radiante e Michelle Pfeiffer cheia de nuances, a série transita entre o caos de fraldas sujas e contas atrasadas entregando um humor cheio de coração.
-
The Other Bennet Sister: O BritBox passou a perna em Bridgerton com o drama de época mais irresistível do ano. Pegaram a irmã mais sem graça de Orgulho e Preconceito (vivida pela ótima Ella Bruccoleri) e deram a ela uma jornada fantástica com livros gigantes, bailes luxuosos e pretendentes. É inteligente na medida certa, sem abrir mão dos suspiros românticos e das risadinhas.
-
Shoresy (5ª Temporada): O que começou no Hulu como um derivado um tanto infantil de Letterkenny evoluiu para um estudo surpreendentemente doce e maduro sobre decência, orgulho cívico e sobre se agarrar às coisas que você ama. Nas palavras da crítica, é o Better Call Saul para o Breaking Bad de sua série original.
-
Widow’s Bay: Matthew Rhys suando a camisa, Stephen Root afiado e um clima bizarro de cidade pequena coberta por uma neblina que não te deixa ir embora. A criadora Katie Dippold, ex-Parks and Rec, entrega na Apple uma mistura saborosa de comédia e suspense que prende pela mitologia assustadora e te ganha pelas palhaçadas pitorescas. Uma série verdadeiramente original no meio de tanto mais do mesmo.