A franquia “Velozes e Furiosos” domina o gosto do público há mais de vinte anos. A força dessa saga de ação e velocidade apenas cresce com o passar do tempo, acumulando dezenas de filmes e derivados. O impacto cultural de Dominic Toretto e sua equipe, no entanto, ultrapassou as telas de cinema e chegou até a literatura de uma forma surpreendente. Antes de explorarmos como os rachas inspiraram um romance do século XIX, é preciso entender a complexa linha do tempo original das telonas, que costuma confundir até os fãs mais assíduos. Afinal, a ordem de lançamento dos longas não segue a cronologia dos eventos da história.
O Início nas Ruas e a Confusão Temporal
Tudo começa com o clássico “Velozes e Furiosos” de 2001. O policial Brian O’Conner, interpretado pelo saudoso Paul Walker, vive um grande dilema ao se infiltrar em uma gangue de corredores de rua em Los Angeles. O grupo, liderado por Dominic Toretto (Vin Diesel), é o principal suspeito de uma série de assaltos. Durante sua missão secreta, Brian acaba se apaixonando por Mia, a irmã de Toretto, e descobre uma verdadeira família entre os criminosos. Logo depois, os eventos nos levam a “+ Velozes + Furiosos” (2003). Fora da força policial, Brian é convocado pelo FBI para desmantelar um cartel de drogas em Miami. Para concluir o trabalho, ele recruta o seu antigo amigo de infância, Roman Pearce (Tyrese Gibson).
A partir desse ponto, a cronologia exige atenção. O quarto filme da franquia, lançado em 2009, é na verdade o terceiro na ordem dos acontecimentos. Encontramos Toretto foragido na República Dominicana ao lado de sua namorada Letty (Michelle Rodriguez) e uma nova equipe. Após a aparente morte da amada, Dom retorna a Los Angeles e cruza novamente o caminho de Brian, que agora atua como agente federal. Uma aliança forçada se forma para derrubar um perigoso traficante. Em seguida, a adrenalina desembarca no Brasil com “Velozes e Furiosos 5: Operação Rio” (2011). Perseguidos pelo implacável agente Luke Hobbs (Dwayne Johnson), os protagonistas reúnem a equipe clássica para um roubo milionário no Rio de Janeiro. A rivalidade com Hobbs ganha novos contornos no sexto filme, de 2013, quando o time é convocado para deter um esquadrão de mercenários de elite que ameaça a paz mundial.
A Peça Que Faltava: O Desafio em Tóquio
Uma das maiores dúvidas do público sempre foi a presença de Han Lue (Sung Kang) nos filmes 5 e 6. O personagem havia morrido no terceiro longa da série, “Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio” (2006). A resposta para esse aparente erro de roteiro é bastante simples. A aventura asiática, focada em um jovem americano que aprende a arte do Drift nas ruas japonesas sob a tutela de Han, acontece cronologicamente apenas após os eventos do sexto filme.
Assim que essa lacuna é preenchida, a história avança para “Velozes e Furiosos 7” (2015). A equipe entra na mira do assassino Deckard Shaw (Jason Statham), que busca vingança pelo seu irmão. O longa também marcou a emocionante despedida de Paul Walker. Logo na sequência, as apostas atingem um novo nível em “Velozes e Furiosos 8” (2017), trama em que Toretto sofre chantagem e é coagido a trair sua própria família.
De Los Angeles para a Inglaterra do Século XIX
Tamanha grandiosidade cinematográfica acabou inspirando a criação de “Fast and Fastidious”. O romance de estreia de R.M. Caldwell, roteirista e diretor teatral radicado na Nova Zelândia, propõe um inusitado cruzamento entre a clássica obra “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen e a franquia de ação. A narrativa acompanha Lucy, uma herdeira neurodivergente que desenvolve uma profunda obsessão pelas “Corridas Noturnas”. Essas competições ilegais de carruagens atraem espectadores e competidores de diferentes origens na Inglaterra de 1810.
O livro consegue entregar uma visão irreverente e incrivelmente realista do período regencial. Enquanto Lucy se encanta por seu novo vizinho, o Capitão James Dashwood, os dois são subitamente jogados no meio de uma conspiração envolvendo assassinatos, roubos, traição e tráfico de armas. A ação culmina em uma frenética corrida de carruagens. A obra brilha justamente por ser autêntica nos moldes da ficção histórica, abraçando o mesmo tom de pura diversão e absurdo que tornou as aventuras motorizadas tão populares nos cinemas.
As Origens do Projeto e a Construção da Protagonista
Caldwell revelou em entrevista recente como surgiu essa ideia curiosa. O título foi a fagulha inicial. Brincando com o nome original da obra de Austen (Pride and Prejudice) e o nome americano dos filmes (The Fast and the Furious), o trocadilho veio quase instantaneamente à sua mente. O autor já possuía rascunhos de uma peça inacabada sobre uma heroína e um salteador de estradas. Ao juntar o romance de época, as corridas de carruagens e a investigação criminal, o esqueleto da história tomou forma. O texto, no entanto, permaneceu engavetado por anos. Foi apenas durante os períodos de isolamento da pandemia de COVID-19 que Caldwell revisou seus capítulos antigos e percebeu um detalhe fundamental: a personagem principal era neurodivergente, uma característica que ele havia escrito de forma totalmente inconsciente.
Essa descoberta ditou o rumo da narrativa. Pessoas no espectro sempre existiram ao longo da história, mesmo antes da nomenclatura médica moderna surgir. Caldwell aponta que diversos especialistas literários acreditam que o próprio Sr. Darcy, de “Orgulho e Preconceito”, apresenta traços de neurodivergência devido à sua forma direta de falar e dificuldade com interações sociais.
Para Lucy, a rígida e codificada sociedade regencial não é uma prisão, mas sim uma ferramenta útil. Interações sociais modernas muitas vezes exigem a leitura de sinais difíceis de interpretar. No século XIX, a protagonista pode simplesmente se apoiar nas regras de etiqueta da época. Ela chega a manter um livro onde anota meticulosamente todas essas normas sociais implícitas para não se perder. Essa perspectiva singular enriquece o texto e serve como um excelente guia para os leitores compreenderem os costumes históricos, enquanto acompanham de camarote uma perseguição em alta velocidade.