Praia do Forte: História e Opulência no paraíso

Por Darlan Ribeiro

A Praia do Forte, na Bahia, é um destino turístico deveras cobiçado por baianos, turistas brasileiros e visitantes estrangeiros! Distrito do município de Mata de São João, a charmosa Vila chama a atenção pela sua notável infraestrutura e por suas riquezas naturais. O ecoturismo, a biodiversidade e o patrimônio histórico agregam valor a este recinto de paz e badalações. O Projeto Tamar (preservação de tartarugas marinhas), o Instituto Baleia Jubarte (preservação de cetáceos), os resquícios de mata atlântica e o Castelo da Torre de Garcia d`Ávila conferem riqueza incalculável e promovem a fama deste pedaço do paraíso. Mas será que esse templo de maravilhas já teria surgido “pronto”, tal qual se apresenta hoje em dia? Esse texto busca abordar, de maneira simples e didática, um pouco da história em torno da Praia do Forte. Para tanto, foram utilizados como fontes secundárias textos da Historiadora Keila Grinberg (UFRJ); artigos do Geógrafo Joaquim Nery Filho; acervo digital da Fundação Garcia d`Ávila e bibliografias de Luiz Alberto Moniz Bandeira (2000) e Pedro Calmon (1939).
A Vila tranquila e sofisticada, do modo como se apresenta atualmente, não nasceu “pronta”. Na década de 1970, Klaus Peter- paulista descendente de alemães e suíços- teria comprado a Fazenda Praia do Forte no intuito de construir um grande hotel com foco na preservação ambiental. Nesta época a região possuía aproximadamente 12 km de praias e uma grande área de mata atlântica quase que intacta. Desse modo, Peter se torna um grande idealizador da estrutura assumida pela região na segunda metade do século XX: um lugar eminentemente turístico, protegido por regras próprias e sob a vigilância constante de leis ambientais. O paulista, de descendência europeia, talvez tenha pensado uma Praia do Forte rentável financeiramente e, ao mesmo tempo, um lugar de descanso e deleite perante a natureza. Neste compasso a Vila caminhou se tornando um dos lugares mais desejados e disputados do litoral norte baiano, quiçá do Brasil e do mundo. Contudo para se compreender a sinuosidade dos eventos, faz-se necessário atrasar o relógio em alguns séculos.
Em 1549, chega à Capitania da Baia de Todos os Santos a expedição chefiada por Tomé de Souza (Primeiro Governador- Geral do Brasil) trazendo consigo Garcia de Souza d`Ávila. Garcia d`Ávila era um agricultor na região de Rates (Portugal) e que havia se notabilizado por participar de campanhas militares na Índia. Protegido de Tomé de Souza, d`Ávila logo ajudou na administração da Cidade de São Salvador- recém inaugurada- e foi ascendendo rapidamente nos seus ofícios. No mês junino daquele mesmo ano Garcia d`Ávila foi nomeado Feitor e Almoxarife da Cidade do Salvador e da Alfandega, alastrando o seu prestígio. Além disso foi encarregado de proteger a região costeira da Capitania, enfrentando os indígenas hostis à colonização e reduzindo os sobreviventes à escravidão. Diante dos bons serviços prestados a El- rei D. José III, d`Ávila recebe sesmarias que se estendem desde Itapagipe, passando por Itapuã, até a Tatuapara (região do litoral norte baiano).
No ano de 1551, d`Ávila alcançou a região da Tatuapara e continuou o embate contra os Tupinambás. Por ordem direta da Coroa portuguesa, deu início ali às construções da Torre Singela de São Pedro de Rates- sua residência e fortificação militar- numa colina elevada e estratégica para manobras de defesa e ataque. A partir disto a expansão territorial latifundiária de Garcia d`Ávila não parou de crescer e chegou a alcançar as terras do que hoje é o estado do Maranhão. As obras da Torre deram origem ao conjunto da fortaleza, compreendida pelo Solar e pela Capela de Nossa Senhora da Conceição, culminando no Castelo da Torre. A fortificação foi feita em estilo medieval, semelhante aos feudos europeus, porém sem que se instalassem ali os modos de vida da época média. As construções terminaram em 1624, conduzidas por Francisco Dias de Ávila Caramuru- neto de Garcia d`Ávila. Apesar de combater veementemente os Tupinambás, Garcia d`Ávila teve uma filha- fora do seu casamento- com uma índia desta etnia. Sua filha acabou casando com Diogo Dias, neto de Diogo Alvares Correia (Caramuru) e Catharina Paraguaçu. Dessas uniões descenderam vários baianos notáveis.
A partir do texto e das pesquisas empreendidas, entende-se que a região da Praia do Forte nasceu a partir da opulência perpetrada por Garcia d`Ávila e pelo sistema colonizador. Os povos indígenas- legítimos habitantes da terra- foram dizimados ou exilados ou escravizados para que Portugal mantivesse o território sob controle. A questão latifundiária é latente e provoca uma reflexão acerca das questões agrárias que tanto agridem o País das desigualdades. Desse modo, observa-se a importância da História para a compreensão da realidade e reflexão diante do que foi, do que é e do que poderá ser. Portanto a Praia do Forte é do índio, que é forte; foi conquistada pelo Garcia, que teve sorte; hoje em dia preserva, porque não quer mais morte.

Fonte da Imagem: www.shutterstock.com

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