Aparecida: devoção, fé e historiografia

Por Darlan Ribeiro

Outubro é um dos meses mais aguardados pelos devotos da Mãe de Deus. Dentro do extenso calendário das celebrações marianas, destaca-se o 12 de outubro- festa litúrgica de Nossa Senhora Aparecida e feriado nacional. Este texto busca apresentar uma breve história sobre a Nossa Senhora da Conceição Aparecida e, por ser conciso, não se aterá ao grande volume de relatos acerca de milagres e datas que oficializam múltiplos eventos eclesiásticos. Escrever sobre a cristandade requer, talvez, mais técnica e cautela do que versar sobre outros tantos temas. Porém sob o olhar da Historiografia e respeitando a atmosfera científica, busca-se uma redação menos provida de paixões. As fontes utilizadas são, em grande medida, secundárias: acervos virtuais da Organização Canção Nova e do Santuário Nacional Aparecida, além da obra do Historiador e Professor Geoffrey Blainey- Uma Breve História do Cristianismo.
O início da devoção à Maria não possui datação específica na história. Entretanto, ensina o Professor Blainey que- alguns poucos séculos após a morte do Cristo- havia uma discussão entre cristãos em torno da gradação de poderes entre Jesus e o próprio Deus. Os debates sobre a Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) ratificaram a santidade de Jesus Cristo e caminharam na direção de Maria, concluindo-se que esta era a Mãe virgem e imaculada. Então, no Concílio de Éfeso (431 d. C.), a Igreja declarou Maria a Mãe de Deus. Mas só a partir da Idade Média, a figura mariana teria se popularizado entre os fiéis. Diante desta gênese, vislumbra-se um terreno mais arado para prosseguir na abordagem sobre Nossa Senhora Aparecida.
Na segunda quinzena de outubro de 1717, Pedro Miguel Portugal e Vasconcelos- Conde de Assumar e governante da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro- estaria de passagem na então Vila de Guaratinguetá. Os populares decidiram fazer uma festa em homenagem ao ilustre visitante e muitos pescadores se lançaram nas águas do Rio Paraíba do Sul a fim de apanharem peixes em oferta ao Conde. Os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso rezaram para a Virgem Maria e pediram ajuda no seu ofício, já que aquela não era uma época de bonança na pescaria. Após várias tentativas sem sucesso, os pescadores desceram o curso do rio e João Alves lançou a sua rede. Ao puxar o artefato de pesca, João notara que havia uma Imagem sem a cabeça. Lançou a rede novamente e, desta vez, apanhara a cabeça da obra de arte. Após terem as duas partes da Imagem, a mesma teria ficado tão pesada que os pescadores não conseguiam sequer manuseá-la. A partir disto, os três pescadores apanharam tantos peixes que foram forçados a retornarem ao cais. Este teria sido o primeiro milagre da Santa.
Durante os quinze anos seguintes após a sua aparição, a Imagem de Nossa Senhora ficou sob a posse da família do pescador Felipe Pedroso. Outros pescadores se dirigiam até a casa do famoso pescador para orar e, gradativamente, outros populares da região para lá também se encaminhavam. A devoção foi crescendo junto ao número de milagres relatados pelos que oravam diante da Santa. Em meio ao exponencial número de fiéis, a família de Pedroso logo construíra um oratório no Porto de Itaguaçu. Por volta de 1734, o Vigário de Guaratinguetá começou a construir uma Capela para a Santa no alto do Morro dos Coqueiros. Em julho de 1822, em viagem pelo Vale do Paraíba, o então Príncipe Regente Pedro I e sua comitiva visitaram a Capela e conheceram a Imagem. Relatos dão conta de que o Príncipe Regente teria feito uma promessa: uma vez que todo o processo em torno da independência do Brasil corresse bem, ele faria Nossa Senhora Aparecida a padroeira do Brasil independente. Contudo ao se tornar Imperador, Pedro escolheu São Pedro de Alcântara como padroeiro.
O número de fiéis continuava crescendo e em 1834 foi iniciada a construção de uma igreja maior. Em novembro de 1888, a Princesa Isabel visitou pela segunda vez a igreja e ofertou à Santa- em pagamento de uma promessa- uma coroa de ouro e um manto azul ricamente ornado. No ano de 1904 a Imagem foi coroada- com os artefatos presenteados pela Princesa Isabel- em celebração solene. Após a coroação o Papa Pio X concedeu ofício e missa própria de Nossa Senhora Aparecida e remiu os pecados dos romeiros que para o Santuário se dirigissem. Em dezembro de 1928, a vila que havia se formado ao redor da Igreja- no Morro dos Coqueiros- se emancipou politicamente de Guaratinguetá e se tornou o município de Aparecida. Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira principal por decreto do Papa Pio XI, em julho de 1930. Após este evento, a Santa recebeu vários títulos e condecorações ao longo dos anos. Em 1955 teve início a construção da Basílica Nova com a arquitetura do edifício em forma de cruz grega, idealizada anos antes pelo arquiteto Benedito Calixto. Em julho de 1980 o Papa João Paulo II, em visita ao Brasil, consagrou a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Também em 1980 foi sancionada a Lei nº 6.802/1980, que reconhece oficialmente Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil e decretara a data de 12 de outubro como feriado nacional em homenagem à Santa.
Segundo especialistas que analisaram a Imagem da Santa, acredita-se que originalmente a mesma teria várias cores. Contudo devido ao longo período em que ficou submersa, a imagem teria perdido suas cores originais. A cor em que se apresenta atualmente seria o resultado da exposição secular à fuligem produzida pelas chamas das velas, lamparinas e candeeiros acesos pelos devotos. Para a Historiadora Tereza Pasin, a Imagem teria sido de autoria do Frei Agostinho de Jesus- monge que atuou na região de São Paulo por volta de 1600. O motivo pelo qual a Imagem se encontrava no fundo de um rio teria explicação com base em um costume da época colonial, quando as imagens sacras quebradas eram arremessadas em rios ou enterradas.

Fonte da Imagem: bbc.com/portuguese/brasil-41585684

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